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ÂNGELUS
Sob o sono dos sinos, silente, o caminho velho, de ferro entre os telheiros.
Telégrafos telégrafos telégrafos de interrompidos fios, hirtos restos de renda, sem bilros.
Moleza discreta de insetos, frios no chão de areia ou sob o oco da madeira: dormentes, urupês, orelhas.
Apenas, leves, borboletas, amarelo sobre a ausência de cabeças, o prisco rasgo de céu azul, sem sutilezas.
O viés ameno de um vento, o obrar em esculturas de esterco seco, em alto e baixo relevo.
Muro branco de azulejos, pele de reboco entre avenca e fendas, resguardo do que foi, se já não era. Heras. Heras.
Bocejo ao longe, parco fôlego em carvão e bronze do último trem, que não viera.
Um resto de banco, o chicote, o colchete, bota e esporas do estafeta, cuja boca, que hoje escarra, já não beija.
E um medo em mim, que vejo, de que a vida isso mesmo (e só) seja.
poesia.net www.algumapoesia.com.br Carlos Machado, 2007
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